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Missionárias de Jesus Crucificados

Missionárias de Jesus CrucificadosMaria Villac, uma jovem campineira com 19 anos, sonhava ir longe, bem longe do Brasil, para responder ao chamado de Deus, ser religiosa, numa Congregação na Bélgica. Mas, a 1ª grande guerra mundial fez com que Maria ficasse em Campinas.

Jovem de muita fé, na experiência da vida, ia descobrindo o que Deus lhe pedia. Um carisma muito especial brotava de sua simplicidade de vida. Muitas outras jovens perceberam isso, procuravam Maria, para receber orientação espiritual.

E, entre estas jovens, a ação do Espírito se foi manifestando. O grupo foi crescendo, numericamente e em compromisso. A devoção a Jesus Crucificado que Maria Villac cultivava, irradiava-se por este grupo e enchia a todas de uma espiritualidade dinâmica. Todas essas jovens estavam cheias do zelo missionário. Fé e ação: oração e missão, era a força motriz do grupo.

Assim esse grupo foi se fortalecendo, porque Jesus Crucificado era o grande fundamento de suas vidas.

Enquanto isto acontecia em Campinas, já em Pelotas-RS, outros sinais de Deus iam se manifestando. Dom Francisco de Campos Barreto, também campineiro, estava lá como 1º Bispo daquela Diocese.

Agia como um profeta. Enquanto a Igreja Católica se preocupava mais com as elites, ele revelou seu amor preferencial pelos operários, dedicando-se à promoção espiritual deles.

Deus “aproximou” Maria e Francisco, para que um grande sonho se realizasse. Dom Barreto foi nomeado 2º Bispo de Campinas.

Como uma bonita e bem alicerçada construção, a base estava solidificada. Em Maria Villac crescia, a cada dia, o ideal, o companheirismo, a vida de oração. Em Dom Barreto, o zelo missionário, a larga visão de futuro.

UM ENCONTRO!

Um dia, Maria Villac foi com algumas de suas companheiras até Dom Barreto apresentar-lhe o Regulamento para que seu grupo se oficializasse como Associação das Missionárias de Jesus Crucificado. Colocaram Dom Barreto a par dos trabalhos e atividades que exerciam: catequese, visitas às famílias carentes, socorro material, orações, exercício da Via-Sacra. Dom Barreto entusiasmou-se; aprovou o Regulamento e incentivou o trabalho, com total apoio.

Assim, o grupo continuou com dinamismo muito grande dentro da Igreja de Campinas, com muitos “centros de catecismo”, nos bairros pobres.

Em 1927, essas valorosas jovens já estavam, aproximadamente, com 5 anos de doação ao serviço do Reino de Deus.

Dom Barreto foi despertado por Deus, inspirado pelo Espírito Santo, convidou Maria Villac para transformar aquela Associação em uma Congregação Religiosa, para dar-lhe mais consistência, estabilidade e expansão.

“E ENTÃO, DONA MARIA, EM QUE FICAMOS?”

Foi essa a pergunta de Dom Barreto, depois de haver feito a proposta de fundação da Congregação.

3 de maio de 1928! Campinas viu nascer esta Congregação, com o nome de: MISSIONÁRIAS DE JESUS CRUCIFICADO e com um jeito todo novo, diferente das que existiam na época: na rua, no apostolado, não usar o hábito – traje religioso. Enquanto a maioria das religiosas não saía de casa à noite, as Missionárias faziam seu apostolado sem essa preocupação.

O grupo inicial era composto de 11 jovens. Iniciaram sua vida comunitária na casa da Família Villac: Hotel d’Europe, cedido pela família à Congregação.

Deixaram suas famílias para ganharem outra, diferente e maior. O “cem por um”, da promessa de Cristo se tornava realidade. Espírito de família foi sempre uma característica forte da Congregação, não só no relacionamento das Irmãs entre si, mas, também, com suas famílias.

Cuidando do aprimoramento da formação das Irmãs, semanalmente Dom Barreto reunia-se com elas e, juntos, iam elaborando os traços da vida comunitária, espiritualidade, missão e aprofundamento bíblico-teológico.

NEGRAS? SIM, POR QUE NÃO?
Receber moças negras foi outra característica da Congregação. Um passo à frente, na Vida Religiosa no Brasil. Hoje as Irmãs de raça negra e indígena têm seus momentos específicos, para aprofundarem as raízes de suas etnias, viver a espiritualidade afro-indígena e participar de movimentos das Raças Negra e Indígena, que têm como objetivo resgatar os valores de suas culturas.

OS ANOS SE PASSARAM…
Visitas, reuniões com operários, Ação Católica, obras de misericórdia, catequese. Em 1955 as Missionárias de Jesus Crucificado organizaram o Departamento de Estatística da Conferência dos Religiosos do Brasil, no Rio de Janeiro, departamento que deu origem ao CERIS, onde as Irmãs atuaram, também, até 1970. Neste ano, atendendo a uma solicitação de Roma, um grupo de Irmãs assumiu o Serviço de Estatística do Vaticano, e lá ficaram por 11 anos. Foi a primeira Comunidade no exterior, embora não em função de ação missionária, propriamente dita.

Hoje as Missionárias de Jesus Crucificado continuam a viver o Carisma missionário indo em busca dos mais necessitados, dos que sofrem injustiças e toda sorte de abandono nos lugares mais difíceis e “além mares”, impulsionadas pelo amor a Jesus Crucificado.

CARISMA
O Espírito conduz sua Igreja para a realização da missão de Jesus na terra, e vai suscitando carismas diferentes, através dos tempos, segundo as necessidades de cada época.

Dom Barreto disse: “Nunca tive a ideia de fundar uma Congregação como as que aí existem. Não haveria vantagem”.

Dom Barreto deixou claro: “A finalidade específica visa a salvação das almas, diretamente”. E, nesse diretamente estava toda a novidade da Congregação: “Dedicar-se com afinco e sem restrições, ao bem do próximo, onde quer que sejam reclamadas…”

“IR EM BUSCA”!
“Devem espontaneamente visitar as famílias… de preferência visitarão casa por casa, nos bairros operários… visitarão as fábricas, os cárceres, as casas dos pobres…”. Consciente da originalidade da Congregação que ele e Maria Villac acabaram de fundar, ensinou às Irmãs: “A Missionária não significa estabilização, mas anda sempre adiante, não deve ficar esperando que o trabalho venha em suas mãos. Deve ir sempre em busca…”

ESPIRITUALIDADE
Com um pé no mundo e outro no convento. “A necessidade da Igreja é a das senhoras: pé na rua. As senhoras foram chamadas para o trabalho das almas, tendo por clausura a rua e a casa dos mais necessitados”.

O segredo das Missionárias de Jesus Crucificado, no “ir em busca ” estava na mesma fonte que encorajou os Apóstolos: um CRUCIFICADO .

Um Deus que busca a pessoa, para mostrar-lhe um caminho novo, caminho de fraternidade, justiça, partilha.

Caminho que é cruz, sim, mas ainda assim CAMINHO que leva à Ressurreição , à superação dos egoísmos, das desigualdades. “Somos uma sequência de Paulo, e só queremos pregar a Cristo Crucificado, princípio de vida”.

O Crucificado está hoje presente nos crucificados que o sistema prega nas cruzes da exclusão, da fome, da doença, do desemprego, do abandono, das dependências tóxicas, das filas, do analfabetismo, do não direito à vida. Toda a vida do povo faz parte da oração diária das Missionárias de Jesus Crucificado: a Paixão de ontem que acontece hoje; a Ressurreição de ontem que mantém viva e firme a esperança nas ressurreições de hoje.

Onde está esta certeza? Na Palavra do Senhor, que se mostra real e eficaz, no dia a dia.

Esta busca de força e de esperança é que alimenta a vida missionária. Ela é o “é dentro”. “As senhoras, em sua vida contemplativa e de apostolado, são como quem tem um pé no mundo e outro no convento”.

MARIA, A “OUTRA MARIA”
Desde o início a devoção a Maria, Mãe de Jesus, foi fortemente inculcada, em cada Missionária de Jesus Crucificado.

Solidárias, como Maria, que não deixou faltar o vinho da vida, que alegra, restaura a confiança e a esperança de um mundo novo de igualdade, de mais vida para todos.

Maria que comungou da Paixão do Cristo, de Sua Ressurreição e é, hoje, a Mãe da Igreja, solidária com tantas Marias que sofrem.

Para imitá-la, querem as Missionárias ser solidárias também. Querem ser Maria-serviço, Maria profetisa da Libertação, sensível aos problemas do seu povo, Maria realizadora da Palavra, Maria fiel até à Cruz, Maria animadora da Comunidade cristã. Para isto, fazem o voto de proclamar o mistério da Virgem Mãe e, através dele, o mistério do Cristo Redentor. Prometem falar, de modo especial, de seu amor de Mãe de Deus e Mãe nossa.

MANSIDÃO
Numa sociedade que se torna cada vez mais violenta, parece importante refletir sobre a bondade e a mansidão de Madre Maria Villac. Sua mansidão impressionou Dom Barreto, que percebeu o quanto esta virtude era fecunda na pastoral. Praticou-a, ele mesmo, em primeiro lugar, fazendo o voto de mansidão e, depois, estendeu-o a toda a Congregação que, com isso, procura imitar Aquele que disse: “Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração”.

CRESCIMENTO
Em 1941 faleceu Dom Barreto, repentinamente. Mas, deixou a Congregação fortificada e em pleno ardor missionário.

A Congregação cresceu muito, com a entrada de novos membros.

Desbravaram sertões, no lombo de cavalos, em canoas, em boleias de caminhões, a pé. Cortaram o Brasil, nas quatro direções.

Hoje, já sem a Fundadora, falecida em 1978, a Congregação tem sua fisionomia definida: contemplativas na ação, vão em busca dos irmãos, sobretudo dos mais necessitados. Vão na força do Espírito, com a arma da mansidão e do amor a Maria .

A Missionária de Jesus Crucificado fundamenta sua espiritualidade na Palavra de Deus, na Eucaristia, na oração pessoal e comunitária, na vida com o povo que vive a Paixão e a Ressurreição de Jesus em suas dores, alegrias, lutas e organizações.

HISTÓRIA DAS IRMÃS MISSIONÁRIAS DE JESUS CRUCIFICADO NA DIOCESE DE RIO BRANCO

A Congregação das Irmãs de Jesus Crucificado chegou à Prelazia do Acre e Purus no ano de 1973, fundando a primeira comunidade missionária na cidade de Boca do Acre, a pedido de Dom Moacyr Grechi, que já se preparava para ser Bispo desta Igreja.

A presença das missionárias foi solicitada para que desenvolvessem serviços de evangelização principalmente, e colaborassem na formação de lideranças locais, com o objetivo de apoiar as Comunidades Eclesiais de Base, que já existiam em pequena proporção, como também para investir na criação de novas Comunidades junto aos ribeirinhos, seringueiros, colonos e moradores da pequena cidade de Boca do Acre.

As primeiras a chegar em Boca do Acre, Irmãs Marina, Leila e Anna, começaram a ajudar na paróquia que estava dando os primeiros passos no trabalho das CEBs.

Fizeram levantamento dos problemas através de visitas às famílias e iniciaram as primeiras viagens nos rios Acre, Purus, Antimari, Inauini e diversos igarapés.

Seguindo os ensinamentos do seu fundador, Dom Francisco de Campos Barreto, assumiram a mesma linha de compromisso com as causas sociais. Ele ensinava: “Vão, então às casas dos operários e depois de ficarem conhecendo sua vida, entrem aos poucos com seus ensinamentos”.

Em 1975, chegou também em Boca do Acre, o padre Alfonso de Caro, fugindo da Diocese de Viana, e com o incentivo e ajuda dele, logo as irmãs também se abriram para a pastoral indigenista, preparando-se através de cursos e encontros.

Em 1979, um grupo de irmãs foram morar na Vila Antimari por um período de três anos, convivendo com o povo, organizando uma cooperativa de compras e vendas comunitárias e reivindicando do Incra a posse de terra dos colonos.

Ali também foi se organizando o trabalho de evangelização, com seus monitores e treinamentos. As viagens pelos rios eram frequentes, acompanhando os padres, nas famosas desobrigas: “No mês de maio de 1989, o Pe. José a Ir. Stela visitam o rio Acre. Visitaram 11 grupos de evangelização. Na Redenção não chegou ninguém, num domingo à tarde: estava todo o mundo no futebol; o grupo deve estar parado. Questionamos muito o grupo de Novo Andirá, também muito mole. Lá um ferreiro conserta o leme do batelão. Para chegar na colocação ‘Ceará’, no Igarapé Grande, foi preciso andarmos 5 horas a pé. A Ir. Stela sofreu muito. Voltamos de canoa para o rio Acre e no caminho apanhamos um temporal muito forte que nos obriga a pernoitar na casa de um seringueiro. O Padre, cuja roupa estava molhada, dormiu embrulhado na túnica da missa, numa rede perto do fogão. Um pouco acima da Vila Antimari, o Dr. Gilberlandia se prontificou para abrir um grupo novo”.

As aventuras nunca faltavam nessas viagens, cheias de surpresas e novidades, mas que sempre se resolviam da melhor maneira possível: “No 4 de abril de 1990, a Ir. Creuza e o Pe. José voltam da visita aos rios e chegam em casa para o almoço. Os imprevistos não faltaram nessa expedição: foi preciso trocar uma junta de motor; o leme saiu do lugar após bater num pau; emperrou-se o rolamento do alternador e fizemos a maior parte da viagem sem luz elétrica; abriu-se de repente uma mina de água dentro do batelão; a reserva de combustível era insuficiente para voltar. De todas essas saímos, graças à calma do Zé, motorista, um antigo pescador que sempre lutou com embarcações velhas. Está na hora de trocarmos o batelão que anda desde 1982”.

Muitas vezes aproveitavam as viagens para fazer diversos serviços: trabalhos da CPT, sacramentos, formação… “No dia 12 de maio de 1990, volta da Ir. Leila e do Vítor da CPT, da visita às comunidades do alto Purus. O povo se queixa que o produtor não tem valor, o sindicato não visita os sócios e que a rádio nacional engana a população. O Vítor incentivou os líderes mais fortes a prosseguirem na organização do povo. O projeto é de formar associações ente os ribeirinhos. Estes já deixaram de pagar renda ao patrão. Ir. Leila batizou 130 crianças e realizou 12 casamentos”.[4] “De 12 a 19 de junho de 1990, as Irmãs Leila e Creuza animam dois treinamentos no Purus: na Praia dos Paus e em Santana. A participação foi satisfatória e desta vez se conseguiu organizar a catequese em vários pontos, graças à elaboração de um roteiro especial para os rios”.

As irmãs, querendo levar mais a sério a pastoral indigenista, foram morar numa aldeia ao longo do igarapé Santo Antonio, junto com os Apurinãs.

Mas a missão parece que terminou em Boca do Acre, para começar em outros lugares: “Dia 6 de outubro de 1995. Reunião das Irmãs de Jesus Crucificado com os padres. A Congregação, após 22 anos na Paróquia de Boca do Acre, retirar-se-ão em setembro de 1996. Daqui para lá prepararão leigos para a coordenação das Comunidades (Macaxeiral e S. Sebastião) que acompanham”.

“Nos encontros de avaliação, tanto com o Bispo, quanto com os padres, notou-se uma insatisfação com a saída das irmãs, o Vigário, porém, mesmo insatisfeito, mas como religioso, achou perfeitamente normal a itinerância numa Comunidade Missionária e dizia: ‘Devem partir quando os frutos amadurecem’. Para as irmãs e para a Congregação, é muito consolador sentir que, depois de quase 24 anos, bem vividos na missão, os leigos já são capazes de caminharem sem a presença das irmãs. Eles mesmos reconhecem que ‘A semente foi lançada pelas irmãs. Agora nós temos que fazer florescer’”.

E o dia da despedida, com as saudades e tristezas do povo: “No dia 13 de outubro de 1996, nas missas da matriz, as Irmãs de Jesus Crucificado, após 23 anos de presença e ação, despediram-se do povo de Boca do Acre”.

Depois de vários anos de presença na Diocese, começariam também o trabalho de acompanhamento de várias CEBs, na periferia de Rio Branco, nos bairros do Aeroporto Velho e Esperança, fundando duas Comunidades e sendo presença de consagradas no meio do povo da periferia da capital. “Creio que está chegando a hora. Diante do que já vivem nossas irmãs há muito tempo, devendo ter uma comunidade de apoio nessa área e ao mesmo tempo, respondendo às necessidades desse povo migrante e empobrecido Nosso empenho é que se concretize nos próximos dois anos. Desde o fim do ano passado, da minha passagem por aí, conversamos sobre o assunto. Pe. Manoel deseja a nossa presença na paróquia onde ele trabalha, e no final de 88 nos escrevia expressando seu pedido”.

“As Irmãs Missionárias deram a sua preciosa contribuição na formação da consciência crítica e participativa das pessoas daquelas comunidades. A partir desta prática, onde todas as pessoas podiam falar, “ter vez e ter voz”, expressar a sua opinião e contribuição, inclusive as pessoas analfabetas que constituíam a grande maioria. Muitos foram alfabetizados nas Comunidades de Base lendo a Bíblia”.