A GRAÇA E O PECADO

                                                                                  

gracaO PEDIDO DA GRAÇA NAS ORAÇÕES INICIAIS DA EUCARISTIA DOMINICAL

 

Na Liturgia Dominical a primeira Oração é chamada de Oração da Coleta, uma das grandes belezas no campo da Liturgia, independente do Tempo em que a Igreja vive, seja ele Tempo Comum ou Tempos Próprios, essas Orações são expressões claras do quanto nós precisamos da Graça de Deus. Durante a Oração da Coleta vemos a Igreja toda unida invocando o Pai para que cada fiel alcance a graça que necessita para converter-se do pecado que ainda se faz presente em sua vida, para conseguirmos agir com responsabilidade diante dos desafios colocados pelo momento histórico dos dias atuais e para crescer na imagem do próprio Jesus, conforme a vontade do Pai para cada ser Humano.

O Espírito Santo deseja imprimir em nós a forma, a imagem e semelhança de Jesus de Nazaré que, durante sua vida, foi perfeito na obediência à vontade do Pai. Em Jesus a Misericórdia Divina tomou forma de solidariedade para conosco, sendo visto, ouvido e amado por aqueles que o seguiram até os confins do mundo. Ao deixar a imagem histórica de Jesus viva na sua consciência, a Igreja pede que a vontade do Pai seja feita conforme a vida de Jesus e o Espírito Santo nos inspira a pedir, com a confiança de que o Pai vai atender nosso pedido.

Por isso, as primeiras orações da Missa dominical são também uma lição na forma como a Igreja vê o homem em toda a sua totalidade, em toda a sua fragilidade, pelos olhos de Jesus sempre cheios de compaixão.  A Igreja vê ainda que somos ameaçados pela força que o mal ainda tem sobre nós e, por isso, quer nos alimentar através da celebração da Eucaristia, e para tomarmos consciência da necessidade de sermos acompanhados pela ação continua da Graça.

Assim, pedimos no 21º domingo: “Ó Deus, que unis os corações dos vossos fieis num só desejo, dai ao vosso povo amar o que ordenais e esperar o que prometeis, para que, na instabilidade deste mundo, fixemos os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias”.

No 24º domingo, entre outras, pedimos que Deus nos conceda a “verdadeira liberdade”.  Outra oração pede que Deus “nos acompanhe sempre com sua Graça, para que estejamos sempre atentos ao bem que devemos fazer; pois só teremos felicidade completa servindo a Vós, criador de todas as coisas”.  Reconhecendo que o Pai nos “libertou da escravidão do pecado”, pedimos sua ajuda para “pensarmos e fazermos o que é bom e sermos felizes”.

Diante da experiência de fraqueza e pecado que estamos enraizados, estas Orações de Coleta são pedidos de Graça, pedidos surgidos de uma fé confiante no eterno Amor do nosso Criador e nosso Pai, invocações enraizadas no conhecimento do trabalho de Jesus de Nazaré para a libertação da humanidade e de tudo que a escraviza.

Assim a assembleia começa cada Eucaristia pedindo que a Graça seja derramada sobre todos os fiéis a fim de que sejam, cada vez mais participantes da história que Jesus começou na inauguração do Reino de Deus, e que nós devemos continuar como povo de Deus.

A imagem de Deus que aparece nestas orações “Coletas” causa admiração!  É o Pai da parábola do filho pródigo, é o Criador que se debruça sobre a sua criatura rebelde, é um Deus que ousamos invocar nas palavras da primeira oração do 27º domingo do Tempo Comum que diz: “Ó Deus eterno e todo-poderoso, que nos concedeis no vosso imenso amor de Pai mais do que merecemos e pedimos, derramai sobre nós a vossa misericórdia, perdoando o que nos pesa na consciência e dando-nos mais do que ousamos pedir.  Por nosso Senhor…”

Em cada primeira oração dominical, estamos pedindo de Deus aquilo que Ele já desejava que nós experimentássemos da sua própria vida no seu plano de salvação, plano este que Jesus foi compreendendo ao longo da sua vida e assumindo na obediência filial que marcava todos os seus dias.

Agora este plano de salvação realizado na vida de Jesus tornou-se um exemplo daquilo que a Graça de Deus tem para oferecer a cada um de nós, ou seja, Jesus glorificado é a imagem que o Pai apresenta a nós como meta da nossa vida de fé.  Ao mesmo tempo Jesus Ressuscitado é a fonte da atuação dele e do Espírito.  Nas palavras do teólogo Congar, “Jesus e o Espírito são as duas mãos do Pai”, pois são Eles que vão talhando cada um de nós segundo a imagem de Jesus, ou nas palavras de São Paulo, Cristo Ressuscitado é a cabeça da Igreja na qual tem a plenitude de Graça para o crescimento do Corpo.

Jesus Glorioso é a perfeita expressão daquilo que o Pai queria desde a eternidade para cada um de nós.  É a oferta da ação gratuita Dele (o Pai) e do Espírito, perdoando, sarando, convidando a todos para participarem da luta contra tudo que prejudica a vida, até a plenitude da vitória da Graça, não somente na Igreja, e sim em tudo e em todos, pois somos chamados a ser parte do Reino de Deus.

A Assembleia, que são todos os fiéis presentes na celebração da Liturgia, se colocam na fé diante do seu Senhor e Cristo em plena caminhada histórica O seguindo.  É a Igreja abrindo cada Celebração com um pedido de perdão pelos pecados, dando glória a Cristo por esse perdão concedido e especificando ao deixar claro na primeira oração, a Graça que quer alcançar nessa semana através da celebração do Mistério Pascal.

Em tudo isso, a celebração eucarística se torna ícone daquilo que está acontecendo na história humana, ou seja, no palco da luta cósmica, entre a força da Graça divina e as resistências do pecado que ainda se manifestam dentro de nós e no meio de nós “até que os inimigos de Cristo sejam colocados como escabelo dos seus pés” (At 2,35).

As orações dominicais do Tempo Comum são uma verdadeira catequese naquilo que a Igreja deseja nos ensinar sobre a pessoa humana.  Cada oração inicial é um pedido do espírito que permeia toda a celebração. Ao dizer “Amém” à oração inicial da Missa, a Assembleia se oferece ao Pai pedindo que Jesus de Nazaré seja formado em cada pessoa ali presente pelas palavras, pelas orações, pelo sacrifício e pela comunhão no seu Corpo e Sangue nessa própria Eucaristia.

Em cada Eucaristia então, a fé enxerga o Pai que decretou a nossa salvação desde a eternidade.  Jesus Glorificado é o Filho que assumiu o plano do Pai, conforme Paulo o descreve numa linguagem bem cheia de significação trinitária:  “Pois o Senhor é o Espírito.  E onde se acha o Espírito do Senhor, aí está a liberdade.  E nós todos que, com a face descoberta, refletimos como num espelho a glória do Senhor, somos transfigurados nessa mesma imagem, cada vez mais resplandecente, pela ação do Senhor,  que é  Espírito” (2 Cr 3,17-18).

 

JESUS DE NAZARÉ TINHA DE SOFRER E ENTRAR EM SUA GLÓRIA

 

Para apreciar as dimensões do Amor de Deus que atua em nossa salvação a qual chamamos de Graça, devemos olhar para trás e retornar a época em que Jesus viveu, pois, é na vida de Jesus, e somente nela, que iremos sentir a grandeza do plano da nossa salvação. Sem voltar à vida de Jesus estaríamos descrevendo a Graça parcialmente porque só a partir da trajetória de Jesus, ou seja, da sua vitória sobre o pecado na Ressurreição, e sua Ascensão ao trono da glória conseguiremos compreender o pecado e a Graça numa dimensão mais histórica, mais humana, e mais envolvente.

Nos Evangelhos, o pecado é visto como falta de fé diante da pessoa de Jesus de Nazaré.  Era esta falta de fé que Jesus sentia no povo que ele amava e que vinha a ele em busca do seu poder de curar. No entanto não havia dúvidas de que essas pessoas tinham fé, visto que várias vezes Jesus exigia a manifestação desta fé antes de realizar uma cura, mas essa fé ainda estava muito longe daquilo que o Reino de Deus exigia daqueles que ouviam Jesus.  Esperava-se que este povo mostrasse uma fé que os levasse a um compromisso com o Reino, em forma de mudança de vida e de uma nova convivência social, baseada no exemplo de compaixão que viram em Jesus.

Durante seu ministério na Galileia e depois na Judéia, Jesus nunca deixou de fazer o chamado a Israel: “Convertei-vos e crede no Evangelho”.  Naquela altura do seu ministério, ainda na Galileia, parece que Ele considerava que seus atos de poder iriam ser suficientes para conduzir os judeus a esta fé, ou seja, que seus milagres eram sinais claros da chegada do Reino de Deus na pessoa Dele mesmo. Assim, afirmava aos fariseus que o acusaram de agir no poder do Maligno: “Se é pelo dedo de Deus que eu expulso demônios, então o Reino de Deus já chegou a vós” (Mt 12,28; Lc 11,20).

Na verdade, Jesus conseguiu curar muitas pessoas de doenças e de espíritos maus e ao fazer isso estava mostrando que Ele era o mais forte, que Ele era aquele anunciado por João Batista, mais forte do que João, mais forte do que Satanás, pois Ele veio para batizar-nos com a força libertadora do próprio Espírito de Deus (Mc 1,7).

Neste mesmo contexto de libertar as pessoas de determinadas formas de cativeiro pelo mal, Jesus contou a pequena parábola que os evangelistas guardaram em cada um dos três Sinóticos: “Ninguém pode entrar na casa de um homem forte e roubar os seus pertences, se primeiro não o amarrar; só então poderá roubar a sua casa” (Mc 3,27; Mt 12,29; Lc 11,21).

Na cultura de Israel, do primeiro século, todo tipo de mal que prejudicava as pessoas era causado por um espírito maligno.  Seguindo este pensamento, Jesus, afirma que Ele têm “amarrado Satanás” quando o venceu no  deserto (Mc 1,13; Mt 4, 3-11; Lc 4,22-13).  Agora, no seu ministério, ele estava “roubando os seus pertences”, isto é, estava libertando os sofridos do domínio do mal, libertando aqueles que se encontravam encarcerados e aprisionados pelo mal e estava fazendo isso diante dos olhos de todo o mundo!

A conclusão era inevitável: Vendo suas obras, todos deviam acreditar nele e aceitar sua mensagem.  E isso, não somente com uma fé que vinha à procura de milagres e, sim, com a fé mais madura que o Reino de Deus exige, de participação com Ele no trabalho do Reino.

Os Sumo Sacerdotes, os escribas e os chefes do povo deviam ter sido os primeiros a reconhecer isso.  Mas em vez disso, os líderes censuravam Jesus por apresentar um Deus diferente.  Pois Jesus falava de Deus como sendo o Pai cuja prioridade era o bem-estar de cada ser humano, e não a exata obediência das prescrições da Lei.  Este conflito era contínuo.  Várias vezes vemos Jesus reivindicando esta liberdade de servir ao bem-estar de cada um que precisava dele.  Assim, ele rebateu a crítica feita por um fariseu, ao vê-lo curar uma mulher no dia de sábado: “Hipócritas. Cada um de vós, no sábado, não solta seu boi e o seu asno do estábulo e leva-o a beber? E esta filha de Abraão que Satanás prendeu há dezoito anos, não convinha soltá-la no dia de sábado? ” (Lc 13,15-16; Lc 6, 6-11; 14,1-6, Mc  3,5).

No decorrer do seu ministério, Jesus percebeu que, apesar dos exorcismos, curas e até a ressurreição de pessoas mortas, ele não estava conseguindo aquilo que pretendia; Israel, como nação, não estava aceitando o chamamento de redefinir-se; ou seja, o convite de passar da condição de um povo congregado ao redor de Moises, àquela outra de um povo congregado ao redor dele mesmo, na comunhão com o Pai que Ele estava manifestando, e na participação com Ele no trabalho da libertação.

No fim do seu trabalho na Galileia, Jesus não conseguiu o que pretendia, pelo contrário, via que sua trajetória o estava conduzindo a um fim violento (Mc 2,20; 3,6).  Israel como nação não se converteu e não chegou a ter fé nele. Era a rejeição dos líderes religiosos, ciumentos da sua autoridade no sistema religioso em vigor, era a expectativa do povo de um rei poderoso e triunfante, criador de um novo império semelhante ao de Davi, era a recusa dos seus próprios discípulos de aceitar que o sofrimento fazia parte da caminhada com Ele e, além de tudo isso Jesus continuava dando sinais da presença Dele no Reino de seu Pai. Devido seus atos de poder, as pessoas iam ficando fascinadas com seus feitos e com isso a cegueira aumentava e com ela, o perigo de sua vida.

Não demorou para Jesus  concluir que o Reino de Deus não viria em Israel através de seus atos de poder!  Pois as suas obras não estavam vencendo a força do mal no seu recinto mais recôndito, isto é, a atuação do seu poder, mesmo no serviço da Misericórdia, para o bem das pessoas, não era ainda a força maior do Reino realizando a libertação radical das pessoas, pois as obras de Jesus não tinham conduzido Israel à conversão. Ainda não existia uma fé capaz de abrir as pessoas à realidade do Reino de Deus que Jesus afirmava estar presente, pronto para irromper na vida de cada um que se convertia e acreditava nele. A persistência da incredulidade era a prova de que as pessoas ainda estavam presas, no cativeiro do Maligno!

Com sua inteligência e sua compreensão do coração das pessoas, Jesus entendeu o rumo em que os eventos o estavam levando e começou a falar aos discípulos da sua morte, mas falava também da sua Ressurreição!  (Lc 9,22…), ou seja, Jesus entendeu o plano do seu Pai: O seu caminho estava conduzindo-o à derrota total da morte, morte no abandono dos seus amigos, morte às mãos de homens que se fizeram instrumentos dos interesses contrários ao bem dos fracos, à superação do individualismo, à compaixão na sociedade.

Sob um olhar mais amplo Jesus buscava entender as dimensões do mal que se levantavam contra ele: seria morte nas mãos de uma humanidade que não tem por si mesma a liberdade de se abrir ao chamado do Reino de Deus, tal como Jesus revelou a eles, seria a perda maior da liberdade daqueles que insistiam em ficar cegos diante do Criador fazendo com que vivessem todas as consequências que Paulo descrevia em Romanos 1,21ss, morte às mãos de um mundo que  forma nas pessoas os diferentes tipos de idolatria conforme a moda do momento, morte às mãos de todas as classes, nações e raças que deixam sua liberdade ser unida a de outros para  cegar a eles mesmos e  desfigurar suas sociedades.

Mas Jesus confia no seu querido Pai, anuncia que sua morte será seguida pela sua Ressurreição que, por sua vez, seria sinal da vitória do Reino de Deus!  Finalmente será a morte da própria morte, será a libertação radical de toda a humanidade que somente um Salvador mais forte poderia realizar. Assim, Jesus entendia o plano do seu Pai: Deus o tinha enviado para ser solidário conosco, na nossa necessidade de passar da condição de pecado à condição de reconciliação com Ele e Jesus não recuaria desta solidariedade.  Em um certo momento Jesus entendeu que isso implicava na “divina necessidade”  de Ele ir a Jerusalém, onde seria  vulnerável ao ódio daqueles que desejavam “fazê-lo perecer” (Lc 19,47). Esta foi a decisão que Jesus tomou em Lucas 9,51.  O texto diz: “Quando se completaram os dias de sua assunção, ele tomou resolutamente o caminho de Jerusalém...” Jesus vai à Cidade Santa não porque o Pai exige o sangue do Filho para nos perdoar; vai, sim, por amor aos seus inimigos, que, por serem judeus, tinham o direito de serem evangelizados.  Ou seja, foi para anunciar a mesma boa nova que tinha anunciado na Galileia, na mesma obediência ao Pai que queria que todos participassem do seu Reino.

Não é que o Pai desejava a morte do Filho, nem que o Filho deixava de ser livre, ao contrário, é a própria liberdade de Jesus que o conduz decididamente a Jerusalém.  Passo por passo Jesus vai para a Cidade Santa, e uma vez lá, ele se instala diariamente no Templo, evangelizando, cumprindo sua missão na capital e sempre passando pelo perigo de a qualquer momento ser preso.  Vemos na cena de Jesus orando no jardim como lhe custava manter-se firme no discernimento que tinha feito, de ficar solidário conosco até o fim.

Assim, em toda sua história de Filho que é, agora o Crucificado/Ressuscitado/Glorificado e Doador do Espírito, continua a abrir-nos a mente para que entendamos as Escrituras; continua a atrair-nos por seu Amor, cuja força para nos libertar é a maior obra que Jesus realiza.  É a salvação que respeita a nossa liberdade, ao mesmo tempo, para que sejamos capazes de acolher o Amor que nos chama à doação. Somos participantes da vida de Jesus, a quem conhecemos e amamos, como o faziam seus amigos de jornada, na Galileia e na Judéia; amigos íntimos que sentamos ao redor da mesa com o Mestre para aprender dele, para sermos alegres na sua presença.

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